Restauração do jardim francês do Museu do Ipiranga incluirá restaurante

Com previsão de reabertura em 7 de setembro de 2022, o jardim francês do Museu do Ipiranga será fechado para restauro e reforma a partir do início de setembro de 2021, não tendo mais o acesso do público, que se limitará ao observatório das obras. A novidade fica por conta de uma surpresa: um restaurante que ocupará a área da antiga sede da administração do parque.

Para além das obras de restauro e modernização do Museu do Ipiranga, a notícia não havia sido planejada no início do projeto. Tombado pela Conpresp desde 1991, o jardim francês envolve a área frontal e lateral do edifício-monumento, tendo ao centro uma grande fonte e um painel de pedras portuguesas na entrada principal. Além disso, inclui balaustres, esculturas, jaqueiras e outras espécies botânicas, banheiros e duas salas destinadas à equipe de segurança e aos administradores. Janelas e enormes portas de ferro formam a paisagem lateral à direita do portão de acesso.

Imagem: H+F Arquitetos

No dia 12 de junho foi autorizada a obra, segundo o Diário Oficial. Segundo consulta do IpirangaFeelings no processo, o projeto faz parte de um acordo entre a Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo – FUSP – e o escritório de arquitetura H+F Arquitetos – o mesmo à frente da restauração do museu, acompanhados pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. A análise do quesito histórico ficou a cargo dos arquitetos Alice Américo, Fábio Donadio e Lia Mayumi, do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH).

Ainda de acordo com o documento que foi discutido entre os órgãos responsáveis, conselheiros, Comitê Gestor e a Coordenadoria de Gestão de Parques e Biodiversidade Municipal, a requalificação do espaço envolve jardins, fontes, esculturas e equipamentos, seguindo as diretrizes da Carta de Florença, 1981 e Carta de Juiz de Fora, de 2010. Assim, deverão ser considerados a preservação das características originais; a recuperação da integridade dos materiais; a promoção da longevidade dos elementos construídos; e o atendimento às novas demandas de uso e função.

Os planos da revitalização e restauro do jardim francês incluem intervenções arquitetônicas, já prevendo a implantação de restaurante, sanitários, área de apoio, reforma da arquibancada localizada no talude leste, adequação à acessibilidade, reforma dos estacionamentos, restauração de revestimentos de piso, escadarias, gradis, amuradas, fontes e demais elementos ornamentais, e restauração do projeto paisagístico, com base em estudos históricos e plano de manejo.

No quesito botânico, o projeto se baseará nas feições do jardim de 1923 para o restauro. O manejo arbóreo irá manter espécimes originais, substituindo exemplares mortos ou danificados por espécies semelhantes. Haverá transplante daquelas que não pertencerem ao período em questão.

Outra novidade é a instalação de duas novas fontes, desativadas e suprimidas ao longo dos anos. Para quem não sabe ou não se recorda, haviam cinco jatos d’água na área do jardim, conforme um registro postal de 1920. Ainda não sabemos quais delas seriam reintroduzidas em 2022, mas pelo parecer do projeto, serão as duas fontes simétricas próximas às grades da Rua dos Patriotas, demolidas em 1972 para dar espaço a áreas ajardinadas.

Imagem: H+F Arquitetos

Na ala Oeste, o depósito e a cabine de eletricidade sob o terraço do jardim superior também passará por reformulação, mantendo a aparência externa. No mesmo setor está a arquibancada, feita em paralelepípedos, que serão substituídos por um revestimento de concreto pigmentado, além de ter patamares e geometria ajustados. Em frente haverá um mobiliário, com mesas, cadeiras e guarda-sóis, criando uma área de convivência e descanso.

A famosa escultura “Tarde”, que presta homenagem à obra póstuma de Olavo Bilac e foi esculpida por William Zadig, poderá ser movimentada durante o reajuste dos pisos, deixando-a centralizada.

Foto: IpirangaFeelings

Sobre o restaurante

A publicação no Diário Oficial registra que: “o novo restaurante será implantado em edificação já existente, localizada sob o estacionamento, na face oeste do jardim. O espaço, hoje ocupado pela administração do parque, terá o layout interno remodelado, de modo a abrigar as novas funções de restaurante e sanitários. Externamente, terá suas feições restauradas, mantendo as feições atuais desse espaço.”

Uma fonte nos afirmou que a administração do parque será provisoriamente transferida para um contêiner no Parque da Independência e, posteriormente, sediada na nova área do mesmo, que também está passando por obras de ampliação. Outra fonte consultada por nos disse que a tradicional feirinha da Rua dos Patriotas aos domingos será transferida para a rua dos Sorocabanos futuramente, visando readequação do espaço, mas também para não haver conflito com o restaurante no jardim, fruto de uma privatização. A mudança não teria deixado os participantes da feira felizes, e provavelmente seguirá com impasses.

O governador João Doria veio ao local anunciar as novidades no dia 31 de agosto de 2021, numa breve coletiva de imprensa. Na ocasião, não comentou sobre o equipamento em questão e, ao ser questionado sobre a ampliação do Parque da Independência — obra que teve início e foi abandonada sem maiores explicações —, se limitou a dizer “não sei, pergunte ao prefeito“. Privatizado, o restaurante terá 270 m² e ainda está em processo de aprovação pela Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP), com projeto não divulgado.

Na ocasião, também foi declarado que o andamento das obras de restauro e modernização do Museu do Ipiranga já está com 70% de conclusão.”Está totalmente dentro do programa. Em novembro começaremos a implantação da parte de museologia. E o final do restauro está marcado para março de 2022“, informou Sérgio Sá Leitão, secretário de Cultura do Estado de São Paulo.

Imagem: H+F Arquitetos

Além do restaurante, haverá food bikes distribuídas pela área do jardim

Imagem: H+F Arquitetos

Acessibilidade

Haverá ajustes em relação à acessibilidade do espaço, que deverá conter pisos adequados, rampas, guarda-corpos e demais adequações, intervindo minimamente na linguagem dos elementos existentes e tombados.

O estacionamento será remodelado, mantendo o piso de asfalto, porém ganhando espaço para ônibus de excursão e bicicletário.

Imagem: H+F Arquitetos

Um jardim, muitas transformações

Não é a primeira vez que o jardim francês do Museu do Ipiranga passa por mudanças. A princípio, foi implementado em 1909 com projeto do paisagista belga Arsenius Puttemans, com fundamentos barrocos de André Le Nôtre, pegando o Jardim de Versailles como inspiração.

A partir de 1922 os jardins passaram por uma ampliação de 1500 m² e no ano seguinte foram incorporados outros elementos, seguindo idealização de Félix Émile Cochet e coordenação do engenheiro Márcio Tomaz Whately. Na década de 30 o jardim já estava rebaixado, conforme o conhecemos atualmente, mantendo o Museu do Ipiranga mais alto e acessado por escadas.

Confira abaixo algumas fotos antigas do jardim:

As fontes da década de 20, esquecidas pelo tempo

*Este texto autoral foi realizado com base em dias e horas de pesquisa do IpirangaFeelings, além de consulta ao processo público 6027.2020/0009280-3. Caso o utilize, mencione a fonte e valorize o nosso trabalho. 💕

*Foto em destaque no topo da matéria: José Rosael/Museu Paulista da USP

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