Bairro do Cambuci celebra 116 anos com legado industrial e chances de crescimento

Parte do chamado centro expandido de São Paulo, o bairro do Cambuci celebra 116 anos. Reconhecido desde 19 de dezembro de 1906, o distrito ainda carrega parte de seu legado industrial e cresce a ritmo mais lento em comparação aos arredores. As chances de se tornar um novo pólo de compras, moradia, cultura e lazer, porém, são altas quando pensamos em projeções de um futuro próximo.

Inicialmente, era utilizado como rota de tropeiros rumo ao Caminho do Mar, passando pelo Ipiranga. A parada na rua do Lavapés era uma necessidade para tirar a terra barrenta das botas e para sanar a sede dos animais.

Rodeado de chácaras, sítios e fazendas, o bairro em zona rural surgiu pouco tempo depois da Proclamação da República, onde antes era a chamada Chácara da Glória – nas esquinas das ruas Clímaco Barbosa e José Bento, hoje o bairro Jardim da Glória. Curiosamente, os córregos Cambuci e Lavapés rendiam até passeios de canoa, fato comprovado em imagens nostálgicas.

O nome do bairro, registrado pela Lei 1040 B, surgiu a partir de duas teorias: a partir da árvore do fruto azedinho Cambricique, que se tornou uma raridade na região e servia para produção de cachaça. O outro mito conta que cambuci é o mesmo que pote, em tupi-guarani, mesmo nome do córrego Cambuci. As águas fluíam até o Largo do Pote, que depois foi rebatizado como Largo do Cambuci.

A partir de meados de 1890, a população começou a se misturar com imigrantes, principalmente italianos, que chegavam à Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca, transformada em Museu da Imigração, além de ocuparem vilas e pensões. No mesmo período surgiu o Museu do Ipiranga e logo as chácaras começaram a vender suas terras para criar vias de bondes elétricos e fábricas.

Cambuci e Museu do Ipiranga em 1919

Com a intensa industrialização da década de 20, o Cambuci se tornou pólo industrial e operário, fazendo com que famílias trabalhadoras de instalassem em suas inúmeras casas geminadas. Assim, foi também palco de mobilizações populares e até vítima da guerra de 1924, que destruiu uma parte de sua estrutura.

Hoje, o Cambuci com seus aproximados 30 mil habitantes vem atraindo incorporadoras com lançamentos de prédios em áreas antes ocupadas por galpões e fábricas. Também está previsto a construção de um shopping, que promete trazer mais movimento e investidores para a região.

O bairro possui uma parte com bastante opção de entretenimento e lazer, como se vê na extensão das ruas Lins de Vasconcelos e Av. Lacerda Franco, enquanto outras áreas formam vazios urbanos e estão em situação de abandono.

Curiosidade: é no Cambuci que fica, até hoje, o conjunto habitacional mais antigo da cidade. Erguido em 1942, o Conjunto Habitacional Várzea do Carmo foi erguido no antigo Caminho do Lavapés, na Rua Professor Demóstenes Batista Figueira Marques. São 22 blocos residenciais de quatro pavimentos.

Hospital Cruz Azul, em 1935

As histórias do Morro do Piolho

Existem ruas icônicas na formação do bairro. Antes chamada de Caminho do Cambuci, a rua Espírita – esquina com rua dos Lavapés – foi parte de inúmeras gerações. Era avistada do alto do Morro do Piolho, descrito por moradores mais antigos como “lugar de malandro”, permeado por músicos e “desocupados”, enquanto outros contam que o desciam a bordo de um pedaço de papelão, típica brincadeira de rua num tempo sem telas digitais.

A rua formada por casas de pau-a-pique tinha entre seus moradores um homem identificado como Preto Badaró, um tipo de andarilho que cultuava ritos africanos. Sua sabedoria pode ter sido apropriada pelo português Antonio Gonçalves, conhecido como Batuíra, que em sua chácara fundou um conhecido centro espírita frequentado pela elite, sob o olhar de seu “Espírito Protetor”, o preto velho Pai Zarabinda.

Foto: Acervo Casa da Imagem/Colorização: IpirangaFeelings

Pós-abolição, formaram-se comunidades negras nas regiões do Jardim da Glória e Cambuci. Entre os personagens importantes do período estão Chico Gago, Preto Badaró, Batuíra (Pai Zarabinda) e Chico Mimi. Grandes contatores de histórias, eram pessoas envolvidas no cotidiano, por motivos diversos: celebrações, religiosidade, comunhão e comércio.

Ora visto como babalorixá (Pai de Santo) e ora mencionado como médium, Batuíra fundou, em 1878, o jornal “Verdade e Luz” para propagar a fé religiosa. O nome da rua veio por sua causa.

As leituras destes personagens do Cambuci são polêmicas. Algumas alegam que Batuíra foi discípulo de Badaró, existência por vezes ignorada por textos do espiritismo. Entre os relatos: “Batuíra não passava de um homem fulo, grisalho, barbudo, baixote e gorducho, de maus dentes e já na casa dos sessenta. Babalorixá de fama (…) Claro que havia exagero em tudo que se dizia sobre ele, o estranho senhor Batuíra. Mas nunca faltavam consulentes importantes na tenda do diabo do homem. Até gente da alta política, das altas finanças e do alto comércio lá se apresentava. Gente que não pedia, mandava.”

A biografia controversa de Batuíra conta ainda que este pioneiro da doutrina espírita no Brasil participou ativamente da campanha abolicionista de Luiz Gama e Antônio Bento, chegando a esconder escravos fugitivos em sua própria casa até conseguir negociar sua alforria.

O Morro do Piolho virou um amontoado de edifícios.

Rua Espírita em 1927, no bairro Cambuci – Foto: Caio Barreto

Religiosidade

A formação religiosa da comunidade também foi formada pela Capela Nossa Senhora de Lourdes, construída por volta de 1870 em devoção à Santa de Lourdes. Dizem que até o imperador D. Pedro II chegou a passar por ela.

O terreno para construção pertenceu à chácara de Dona Eulália Assumpção e Silva, uma das maiores da região, desmembrada durante a urbanização. Um ano após a morte de Eulália, em 1895, o espaço deu lugar a Paróquia de São Joaquim do Cambuci, hoje Igreja Nossa Senhora da Glória, em estilo gótico feudal. Em 1902 parte do lote se tornou no Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, um dos mais tradicionais de São Paulo.

Na guerra de 1924, que se alastrou por diversos bairros da Zona Sul, a disputada igreja foi defendida por rebeldes, abrigando-os. Parte dela foi bombardeada.

Curiosidade: nos anos 1990 foram descobertas as “catacumbas” da Igreja da Glória, onde havia oito ossadas, como a de Dona Eulália, e outros membros de sua família.

Outro marco religioso do bairro é a Mesquita Brasil, a primeira mesquita construída na América Latina, em meados de 1929 pelo egípcio Dr. Abdallah Abdelshakour e a Sociedade Beneficente Muçulmana. É um importante templo para toda a comunidade muçulmana de São Paulo, mantendo uma agenda intensa de atividades, incluindo aula de religião.

Localizada na rua Barão de Jaraguá, 632, a mesquita realiza um tradicional almoço árabe-brasileiro todas as sextas-feiras, após o Salat Al Jumah. O custo por pessoa é de R$ 35,00 com comida, sobremesas e bebidas à vontade.

– Crianças menores de 5 anos, não pagam;

– Crianças de 5 a 10 anos, pagam (R$ 20,00);

– Crianças maiores de 10 anos, pagam valor integral (R$ 35,00).

Industrialização & revoltas

Com as chácaras se desfazendo, a indústria foi se instalando na região. A principal delas foi, provavelmente, as oficinas de manutenção de máquinas elétricas da antiga companhia inglesa Light and Power Co, conhecidas apenas como Oficinas do Cambuci, ocupadas por filhos e netos de imigrantes, em sua maioria.

Erguidas em 1913 em 107 mil m², os galpões de alvenaria de tijolos aparentes foram demolidos em 2014 para dar espaço a um grande empreendimento imobiliário. O imenso local segue vazio até hoje, com a promessa de construção de 35 torres, parte delas inseridas no programa Minha Casa Minha Vida.

Outras indústrias formavam o importante pólo local: a Nadir Figueiredo (fábrica de utensílios de vidro), os cigarros Sudan, e a Villares (antiga fábrica de metais, atual empresa de elevadores). A fábrica de chapéus Ramenzoni permeia a memória de antigos moradores, sendo também bombardeada em 1924.

A forte presença de fábricas rendeu aos operários um senso político de demandar seus direitos através de manifestações. Tais episódios no Cambuci constam nas páginas da história paulistana como impulsionadores do anarquismo.

O Cineteatro Guarani, no Largo do Cambuci, servia para reuniões dos trabalhadores que, em 10 de junho 1917, fizeram uma grande greve em prol do aumento salarial negado. Os protestos começaram no setor têxtil, na Mooca, chegando ao Brás e à fábrica de Nami Jafet, no Cambuci, estendendo-se por um mês. Na Light também havia greves e vigilância sobre o engajamento dos trabalhadores.

Antiga tecelagem no Cambuci
Funcionários da Indústria Metalúrgia Lafonte, em 1920, no bairro Cambuci

Um episódio marcante aconteceu durante a repressão da Força Pública de São Paulo, que matou o sapateiro anarquista José Martinez, prendeu vários militantes e fechou a Liga Operária da Mooca. Sob a força do ódio, as mobilizações se acentuaram a partir da tragédia. A partir de então a organização da classe trabalhadora se intensificou, com a criação de periódicos, semanários e do Comitê de Defesa Proletária.

Tempo depois, durante os conflitos da Revolta Paulista de 1924, da qual anarquistas e operários se juntaram, uma imagem registra a história de força popular: estudantes aparecem na porta de uma delegacia no Cambuci para libertar presos políticos.

Cultura de bairro

Por meio de imagens e relatos históricos, sabemos que o bairro do Cambuci tinha em sua vida cultural os saudosos cinemas de rua. O principal deles era o Cine Riviera, belo edifício inaugurado em 1952 na Avenida Lins de Vasconcelos. Depois, na década de 80, como tantos espaços do tipo, acabou se tornando uma unidade da Igreja neopentecostal Renascer em Cristo.

Na Rua Clímaco Barbosa, um charmoso edifício era ocupado pelo Cine Cambucy, em meados dos anos 1940. Foi demolido e o terreno hoje abriga um banco. Havia ainda o Cineteatro Guarany, descrito acima, que depois do auge se transformou em um hortifruti.

Foto: Arquivo do projeto Cine Mafalda

Já a identidade negra do bairro formava cordões, rodas de samba e escolas da Samba. Uma das figuras mais emblemáticas da região foi Deolinda Madre, a Madrinha Eunice, ativista e fundadora da Sociedade Recreativa Beneficente Esportiva Lavapés Pirata Negro, em 1937. A sambista da mais antiga escola em atividade é hoje homenageada com uma estátua na Praça da Liberdade.

Foto: © Rovena Rosa/Agência Brasil

O futebol amador era uma força crescente entre os arredores da Várzea do Carmo e a Baixada do Glicério, com grupos compostos por trabalhadores das fábricas, em sua maioria.

A vida cultural do bairro também chegou a acontecer no primeiro estádio da Associação Portuguesa de Desportos, inaugurado na rua Cesário Ramalho, em 1925 e demolido no início dos anos 30. Depois de conquistar alguns títulos, o time migrou para o Largo São Bento, até chegar ao Canindé, em 1972.

Lanchonete A Chapa, Av Lins de Vasconcelos esquina com R. Heitor Peixoto. Permanece no local desde 1970

Berço de Volpi

Um dos grandes artistas brasileiros de todos os tempos, Alfredo Volpi é “cria” do Cambuci. Nascido na cidade italiana de Lucca, veio com pouco mais de um ano para o Brasil com os pais, instalando-se no bairro. Foi aluno da Escola Profissional Masculina do Brás, onde aprendeu marcenaria. Trabalhou como encardenador, entalhador e pintor de paredes, decorando mansões paulistanas com adornos.

Foi em meados de 1912 que o artista autoditada passou a pintar telas. A obra “Feira do Cambuci”, de 1920, revela outros traços de Volpi, mundialmente conhecido por suas bandeirinhas e pinceladas modernistas. É, talvez, uma marca de sua paixão pelo bairro, onde viveu durante toda a vida, de maneira modesta e – segundo relatos – sempre generosa. Morreu aos 92 anos, em 1988, em casa.

Curiosidade: dizem que as telas de Volpi tinham um aroma específico. O perfume era resultado de sua produção caseira de tintas.

Volpi em sua casa e ateliê no bairro Cambuci

Outras figuras ilustres tiveram passagem pelo bairro, como o fotógrafo, pianista e compositor Valério Vieira (1862 – 1941), conhecido por combinar o retrato e a fotomontagem, além do caráter humorístico e teatral de seus trabalhos. Em 1923, ele mudou seu estúdio para o Largo São Paulo, 16.

Conhecido como Palhaço Arrelia, o comediante Waldemar Seyssel chegou ao bairro em 1922, junto com seus irmãos. Anos depois, ele foi o primeiro a liderar um programa de televisão infantil. O pintor Carlos Rotella, Monteiro Lobato e Jânio Quadros foram outros moradores conhecidos. 

A colorida arte de rua começou a se espalhar em fábricas do bairro a partir dos anos 1990. O Cambuci exportou dois talentos: a dupla osgemeos, que levaram o grafite brasileiro a outro patamar. Otávio e Gustavo Pandolfo mergulharam na cultura hip-hop e, junto com amigos, passaram a fazer murais e outras expressões artísticas pelas ruas da cidade. Depois de rodarem o mundo, até hoje retornam ao local onde cresceram, realizando uma festa de rua chamada Portal do Cambuci.

Fachada com artes da dupla osgemeos na Cambuci Metalúrgica, fundada em 1930 – R. Luís Gama, 803

Já na área no design, quem fez história no Cambuci foi a Móveis Lafer, indústria que revolucionou o mobiliário brasileiro a partir de 1960, com as criações inovadoras de Percival Lafer. Localizada na Rua dos Lavapés, número 6, ficou em atividades até outubro de 2022. O legado de móveis modernos e funcionais, que hoje se tornou item de colecionador e objeto de desejo para amantes de antiguidades, jamais morrerá.

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Ipiranga Feelings

8 thoughts on “Bairro do Cambuci celebra 116 anos com legado industrial e chances de crescimento

  1. Esse bairro e um cantinho do Céu, as pessoas são amaveis, o bairro e muito bom. Tem problemas tem, mas não como o restante da cidade. Sou carioca mais paulista desta cidade

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