Comandada por uma mulher, barbearia na Aclimação é experiência primorosa de cuidado

Foi-se o tempo em que o termo barbeira era pessimamente empregado para ofender mulheres no volante. E, ao que tudo indica, parece que também ficou no passado a ideia de barbearia comandada apenas por homens, como um clube do bolinha. A barbeira Vera Robalo oferece uma experiência irretocável em seu templo de cuidado, beleza e relaxamento em sua barbearia na Aclimação.

O espaço vintage para lá de intimista fica escondido, sem placa e sem alarde. Música clássica conduz o atendimento cordial, simpático e tranquilo. Cafezinho é serventia da casa, como mandam os bons costumes de hospitalidade brasileira. “Aqui ofereço o que chamamos de slow beauty. É sem pressa, um momento para relaxar”, disse a barbeira gaúcha, a princípio com mais séria, mas que aos poucos vai exibindo um sorriso e contando histórias.

Envolvidos pela desconexão com as horas no relógio, tem cliente que até dorme na belíssima cadeira centenária, xodó de Vera, definida como “a cereja do bolo”. Foi barganhada e reformada, chamando a atenção no meio da sala do aconchegante apartamento antigo. O cenário bem pensado, junto a apresentação ritualística, é tão performático quanto um elegante baile de dança da Era Vitoriana.

Pelas paredes do espaço se espalham diplomas em barbearia clássica italiana. “A gente utiliza uma navalha específica, a lâmina fixa, para o corte e acabamento. É bem mais cara também”, explica Vera, com uma preocupação extra com a esterilização das ferramentas.

O cuidado em tudo o que toca é perceptível: pentes mergulhados em uma solução azul chamam a atenção. “É um produto hospitalar que uso para esterilizar tudo. Estou mexendo com a pele das pessoas, não quero causar infecções. É uma coisa muito séria.”

Os produtos, em sua maioria, atravessam o oceano para chegar até suas mãos. É do Velho Continente que vêm as melhores marcas, sendo Espanha e Itália os preferidos. Vera gosta de falar detalhadamente sobre a profissão que desperta o brilho no olhar. Apresenta tudo, inclusive os aromas dos produtos, item indispensável na barbearia. “O brasileiro é apegado aos cheiros, ao banho, gosta de se assear”, constata.

A constatação é feita com propriedade. Após passar anos em Portugal e viajando pela Europa, Vera voltou ao Brasil com muitas referências na bagagem, mas sem planos de se tornar barbeira. Até que a vida deu um empurrãozinho: a demissão, que aconteceu com a venda da empresa onde trabalhava. A carreira corporativa como secretária executiva foi deixada para trás e ela investiu na formação como cabeleireira. “Inicialmente fiz um curso de três meses e então veio a pandemia. Pensei: ferrou!”.

Divisora de águas na vida de muita gente, a pandemia de 2020 colocou um ponto final no casamento de 18 anos e trouxe rearranjos para ela e os dois filhos. Aos poucos, a mesa grande da sala de jantar saiu de cena e abriu espaço para o novo. Sem ponto comercial, Vera iniciou atendimentos em casa, algo comum na rotina de cabeleireiras. O diferencial era: uma cliente por vez, sem ala de espera, sem multitarefas.

Outros cursos vieram com o tempo até que os atendimentos masculinos despertaram mais a sua atenção. Nascia uma barbeira, junto a uma nova Vera. “Me apaixonei pela profissão. Em um dos cursos que fiz, tocavam um sino quando viam que o aluno tinha o dom. E aconteceu comigo”, relembra, com orgulho. Ela brinca: “gosto tanto que eu queria ter barba!”

Os estudos contínuos permitiram que o aprimoramento, levando Vera a oferecer um serviço completo: faz barba, cabelo, bigode e depilação com cera quente. Ela ressalva que o número de mulheres ingressando na profissão vem crescendo, e que, num passado nem tão distante, parecia impossível. A rivalidade feminina, também perpetuada numa sociedade pautada pelo gênero oposto, é um ponto crítico a ser superado. “Sempre fui bem recebida e bem tratada pelos homens. Cheguei até a me sentir especial, sabe? Mas gerava incômodo nas mulheres que trabalhavam junto”, lamenta.

A seriedade aplicada à técnica faz com que Vera tenha um atendimento acima da média. Uma boa música, um bom papo, um cafezinho. As coisas fluem como se estivéssemos com uma pessoa conhecida há anos. Mas, diferente do que se imagina, ela acha que não cumpre com o papel de psicóloga dos clientes. “Aqui a gente conversa sobre filmes, música, viagens, bons lugares para comer e beber. Claro que algumas pessoas podem se abrir mais, só que, até pelo espaço ser como é, geralmente os problemas ficam lá fora”, conta.

O atendimento, feito apenas com hora marcada entre 8h e 20h, tem como outro diferencial uma facilidade: funciona também aos domingos. Agendamento pelo WhatsApp: (11) 95911-5064.

Preços: corte sai por R$ 70; barba por R$ 60; corte + barba é R$ 120, com promoção de segunda a quarta, quando sai por R$ 90.

Todas as fotos por IpirangaFeelings

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Ipiranga Feelings

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