Fundado por franceses, Sacomã tinha parque, lagoa e olarias

Quem passa pelo trecho do distrito Sacomã, parte da área administrativa do Ipiranga, pode nem imaginar que a região tinha um parque, lagoa e olarias importantes para o desenvolvimento da cidade. Fundado por franceses, o trecho tem atualmente pouquíssimos resquícios de sua história.

A cada olhada nos livros e registros históricos, novas descobertas sobre o legado industrial do Ipiranga, que vai muito além da tecelagem e do império da família Jafet. É o caso das olarias, que por aqui tiveram ligação com os bairros Vila Prudente e São Caetano do Sul.

Recaptulando rapidamente, a região do Ipiranga era tradicionalmente rural nos séculos 17 e 18, abrigando chácaras, sítios e plantações de trigo em grandes fazendas. Com a presença de moinhos em algumas delas, dá pra imaginar como surgiu o subdistrito Vila Moinho Velho, né? Ali existia o Sítio Moinho, que tem ligação direta com a origem do Sacomã. Os arredores ipiranguistas também eram ricos em argila, com jazidas na área próxima à Figueira das Lágrimas.

Foto: arquivo/Correio da Manhã

O loteamento começou a partir do século 19, quando a imigração trouxe pra cá homens em busca de terras para proliferarem seus negócios. Assim chegaram os irmãos Ernest, Henri e Antoine Saccoman, diretamente de Marselha, na França, em 1886. A olaria já era uma tradição no país europeu e foi devidamente exportada pelo trio.

Chegando em terra Brasilis, trataram de buscar um local para produzir telhas e outros produtos de terracota. Passaram um ano no bairro Água Branca, migraram para Osasco, mas não encontravam a argila necessária para a realização do trabalho. Em meados de 1893 se instalaram então em um galpão onde hoje fica a Rua do Manifesto e a Silva Bueno, antigamente chamada de Estrada de Mato Grosso. Carro de boi buscava argila próxima à Estrada do Moinho Velho, ou Estrada das Lágrimas.

Depois de adquirirem mais um galpão de produção, inauguraram oficialmente, em 1895, o Estabelecimento Cerâmico Saccoman Frères. Na época, haviam feito uma sociedade junto aos irmãos italianos Emídio, Panfilio e Bernardino Falchi, donos de terras e fundadores da Vila Prudente.

Alguns pesquisadores indicam que os Falchi se juntaram ao negócio fundado pelos Saccoman, enquanto outros dizem o oposto. Em todo caso, a parceria se desfez quando os Falchi fundaram sua própria olaria, próxima à Estação Ferroviária do Ipiranga, a Cia. Cerâmica Vila Prudente, em 1910* (aqui cabe uma observação: existe inconsistência de dados entre as duas empresas em relação a qual delas foi a primeira olaria do Brasil).

Era comum que, a medida em que as indústrias iam crescendo e expandindo suas terras, se formasse novos distritos. Foi assim que nasceu o Sacomã, sob domínio dos irmãos franceses, com grafia alterada ao longo dos anos. A indústria, posteriormente chamada de Cerâmica Saccoman S.A., fez com que moradias de operários e comércios surgissem por ali.

Em 1909, construíram um belo palacete, às margens de uma lagoa natural e próximo à fábrica, para morarem e consequentemente exibirem seus produtos. A partir de 1913, quando os bondes passaram a funcionar, facilitando a vida dos trabalhadores, o distrito já tinha seu nome atrelado à família, tornando-se referência.

Os produtos da olaria ganharam fama na cidade, fazendo parte de importantes construções, como o antigo Palácio do Governo, a Tecelagem Villa de São Bernardo (SBC) e o belíssimo Palacete Joaquim Franco de Mello, extinto na Av. Paulista. O maior destaque atual, porém, é a Estação da Luz, feita com tijolos e telhas dos irmãos Saccoman.

Chegando em 1921, Antoine Sacoman faleceu, desanimando ainda mais os dois irmãos que ficaram. O período pós-guerra trouxe também dificuldades financeiras e desaceleração nas construções paulistanas.

Henry e Ernest retornam à França em 1923, deixando o casarão e a olaria para um antigo funcionário, Américo Paschoalino Sammarone, que a manteve funcionando até 1956 como Cerâmica Ypiranga. A partir de então, a área passou a ser modificada, com terrenos sendo loteados e a Via Anchieta ganhando mais quilômetros.

Ao lado da esposa Malvina Ferrara, o empresário fundou um cinema e comprou um edifício no centro da cidade, na Rua José Bonifácio – 210, para abrigar seu escritório. O local foi transformado em residência artística e continua alugando salas comerciais.

Já no Sacomã hoje, restou praticamente nada das famílias Saccoman e Sammarone, o que é realmente uma lástima para o bairro.

Terra Fértil

Reza a lenda que até hoje no Sacomã existe uma jazida de Caulim, minério de alumínio que resultava na cerâmica branca. A localização seria onde funcionava uma olaria da família Matarazzo, atualmente ocupada por um supermercado no quilômetro 11 da Anchieta, que teria causado muitos acidentes. O material também era incorporado à fabricação de taguá, tipo de argila vermelha que dava origem às cerâmicas.

A lagoa Maldita

“Bela e tentadora de dia, mas tenebrosa à noite”, dizia o jornal Folha de São Paulo sobre a Lagoa do Sacomã, também chamada de Lagoa Maldita, Lagoa Boca da Onça e Buracão do Sacomã, carregada de lendas e superstições. Era uma cratera da antiga jazida de argila dos Saccoman que, com o tempo, acumulou água, se espalhando por 10 mil m². Para localização do mapa atual, seria na altura entre as praças Monte Azul e Altemar Dutra.

Mesmo com cor de barro, não demorou a atrair banhistas. Porém, muitos deles não sabiam nadar, levando 44 adultos e crianças à óbito. Segundo a publicação que noticiava a tragédia em 1960, a profundidade era de aproximadamente 19 metros.

Virou um atrativo um tanto macabro, alimentando a ideia de que assombrações rondavam o local “amaldiçoado”. Tentaram colocar de tudo para impedir os aventureiros da noite: muro, guardinha, placa e uma cruz enorme no meio do terreno, que avisava: “até quando esta lagoa continuará ceifando a vidas inocentes?”.

Iniciou-se então uma campanha popular para que a mesma fosse aterrada, o que aconteceu pouco tempo depois. Havia também um grande sonho por parte dos moradores: o de que a área se transformasse num parque, pois não havia local para “as crianças brincarem livremente”, dizia o documento em busca de 30.000 assinaturas. Até hoje, não há.

O Castelinho esquecido

A mansão erguida pelos irmãos Saccoman infelizmente ficou esquecida na linha do tempo do Ipiranga. São poucos os registros dela, embora fosse a construção mais imponente da região, com características típicas dos “chateaus” (casas de campo) franceses. No Brasil, o estilo ficou eclético, dada a mistura de referências Art Nouveau, Art Déco, Renascentista e Neocolonial.

Pela única imagem que temos dela, podemos observar pé direito alto, varandas com ornamentações Art Nouveau, janelas francesas com bordas decoradas e cobertura com cúpulas de base retangular, provavelmente em ardósia e cerâmica. A imprensa relatou que a casa também foi erguida em cerâmica vermelha, ficando aparente, sem revestimento, daí o marketing da olaria.

Foto: arquivo do cartório do Ipiranga

Eram quatro andares, sendo térreo, primeiro andar, segundo andar e sótão. Havia sete salões, 10 quartos, cinco banheiros, uma cozinha e três copas. As paredes do primeiro piso eram pintadas a tinta óleo e emolduradas com retoques dourados.

E, assim como numa chácara, possuía jardins, pomares e uma lagoa natural ao redor. Nos fundos havia um conjunto de casas dos empregados, formando uma espécie de vilarejo. A nível de curiosidade, Sammarone era apaixonado por cães e ao menos três vira-latas viveram ali: Piratão, Zebra e Lassie, que morreu atropelada na Via Anchieta. O comendador adoeceu e faleceu em 1962.

O casarão, conhecido como Castelinho Sammarone, ficou um tempo abandonado e infelizmente, nas mãos do filho Americo Sammarone Junior, foi demolido em 1969, marcando mais uma vez o descaso do Brasil com seu patrimônio histórico.

Castelinho Sammarone, como ficou conhecido, em foto editada e ampliada pelo IpirangaFeelings

O Parque Saccoman

Com um terreno enorme, o castelinho no final da rua Bom Pastor – mesmo local da estação Sacomã do metrô e o conjunto de viadutos – tinha uma área acessível ao público, chamada de Parque Saccoman. Rodeado por árvores, tinha campo de futebol e uma quadra esportiva, onde nasceram alguns times de várzea e, pasmem: o Clube Atlético Ypiranga (CAY), fundado neste local em 1906.

E como nem tudo são flores, foi uma briga danada essa história. A área, que pertencia ao comendador Sammarone, não era bem para funcionar como clube, gerando conflitos na Justiça com o CAY a partir de 1929, que se arrastou até 1953, quando o clube teve uma ordem de despejo e migrou para outros endereços até chegar onde está hoje, na rua do Manifesto.

Foto: arquivo do cartório do Ipiranga

Fato é que, ao longo do tempo, o espaço funcionou definitivamente como um clube desportivo, mantendo times de Basquete (masculino e feminino), Vôlei, Natação e Handball, Hóquei sobre Patins, Atletismo, Futebol de Salão, Bocha, Boxe e Tênis de Mesa.

É comum que as pessoas confundam a lagoa artificial trágica com a lagoa natural do parque, o chamado córrego do Moinho Velho, conforme vemos no mapa abaixo. As águas que separavam a área verde pública da residência Sammarone serviam para prática de esportes aquáticos pelo CAY. Havia um atracadouro para barcos também.

Depois que o CAY foi expulso, uma outra lagoa se formou para a extração de argila. Com o fechamento da cerâmica, também foi aterrada. O terreno ficou vazio até meados de 1990, quando se iniciaram as obras do Terminal Sacomã.

*Nota da autora: próximo ao Terminal Sacomã existem duas ruas, que indicam o tamanho da área do antigo parque: a Rua do Parque e a Rua do Lago. Acredito, então, que a extensão do parque ia da Bom Pastor até os arredores dessas duas vias, nomeadas de forma simples, mas que justificam o que havia por ali em outros tempos.

Mapa da propriedade de Sammarone
Foto da lagoa do Parque Saccoman, ampliada e editada pelo IpirangaFeelings
Foto: arquivo/sem autor identificado

Este texto autoral foi realizado com base em dias e horas de pesquisa do IpirangaFeelings, vasculhando arquivos, fotos, relatos e jornais de época para ter maior precisão nas informações. Caso o utilize, mencione a fonte e valorize o nosso trabalho. 💕

3 comentários

  1. Mario

    Parabéns pela matéria! Conheci os locais descritos, frequento o bairro desde os anos 50. Vila Vera, loteamento adjacente, feito por meu avô Francisco Malta e batizado em homenagem à minha avó Vera. Vale lembrar que, ali nos arredores da Estrada das Lágrimas, meu avô doou áreas para construção da Escola Municipal (Rua Taquarichim), 26a. Delegacia (Av. Padre Arlindo Vieira, antiga Estrada das Lágrimas) e Corpo de Bombeiros (Rua Max Webber), visando a implantação e bem-estar do então futuro bairro. Aprendi muito com seu estudo, obrigado!

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