Grêmio Esportivo Black Power: protagonismo negro no FUTEBOL DE VÁRZEA do Ipiranga

A partir da década de 50, o Brasil assumiu de vez o futebol como paixão nacional. Democrático, o esporte invadiu não apenas os estádios, mas as ruas do país inteiro, reunindo crianças e marmanjos para jogar, inspirados por Pelé, Rivellino e Jairzinho. No futebol de várzea do bairro Ipiranga, um time fez história: o Grêmio Esportivo Black Power.

Na véspera de Natal de 1972, Édson Aparecido Corrêa – o Branca, o irmão Nélson Mário Corrêa – o Vitamina, e Benedito Roberto Rodrigues – o Zás-Trás, se juntaram a alguns amigos pretos com cabelos estilo Jair Ventura Filho, o Jairzinho, grande jogador da seleção brasileira, para criar o Black do Ipiranga, que inicialmente chegou a ter dois outros nomes: Cartola e Águia Negra.

Foto: divulgação
Sede do Black Power em 2016. Foto: Luiz Dias Lufer

Nas cores azul, preto e branco nasceu no Bar da Lídia, na rua Vergueiro – 7673, um dos times mais importantes e influentes da várzea paulistana. Com uma família grande se reunindo aos finais de ano, Branca conta que essas ocasiões serviam de “desculpa” para jogar uma pelada. Até que um dia surgiu a ideia de organizar a galera.

A criação do grêmio ipiranguista não aconteceu por acaso. Na época, além de artistas negros como James Brown ganharem os palcos, o esporte se juntava à mobilização contra a discriminação racial, como resposta ao assassinato do pacifista e líder da resistência não-violenta, Martin Luther King, em 1968. Naquele ano, houve um episódio marcante durante os Jogos Olímpicos, no México.

Ao receberem as medalhas de ouro e bronze no pódio, os atletas negros norte-americanos, Tommie Smith e John Carlos resolveram protestar contra os racistas por meio de um gesto simbólico silencioso e poderoso. Vestiram luvas pretas e ergueram os punhos cerrados para o alto, levando o símbolo black power para a capa dos jornais. Eles também se recusaram a respeitar o hino do Estados Unidos e a fitar o hasteamento da bandeira, o que os rendeu uma suspensão.

A cena continuou repercutindo, unindo outros atletas que passaram a repetir o gesto e a protestar junto. Hoje, 52 anos depois, voltamos a ver o esporte politizado ganhando força, servindo como propulsor para a indignação e a transformação social. Lewis Hamilton, campeão da Fórmula1, é um belo exemplo para atletas e um dos ídolos de Branca.

Cabelo cheio e domínio da bola

Jovens pretos envolvidos em movimentos sociais formavam o time que tinha orgulho de sua cor, seu cabelo, suas origens. Apenas cinco anos após a fundação que homens brancos saíram da reserva, se juntaram de vez à causa e vestiram a camisa em campo.

Rebeldes e idealistas, os jogadores não deixavam de se posicionar contra a segregação racial, que era igualmente cruel naquela época. Porém, segundo Branca, sempre com viés positivo de empoderamento da negritude e não com envolvimento partidário.

Os jogadores do Black Power do Ipiranga eram parte de uma militância em prol do protagonismo negro e do antirracismo, seja de forma declarada ou não, visto que os fundadores alegam que não puxavam tanto pra esse lado. Tampouco precisa, afinal, sempre que um preto se afirma e se orgulha de ser quem é num país que mata e discrimina essa parcela da população, o ato é inevitavelmente político.

A primeira disputa foi contra o Fantástico, da Vila Mariana, no campo da Brahma. E já foi vitoriosa: 5 a 1 para o Black. A emoção daquele dia pulsa até hoje no coração de Edson.

Ao longo dos anos, o time foi acumulando taças, chegando ao primeiro lugar na Copa El Tigre de 1975 e no Torneio Campeão dos Campeões de 1984. Na Copa Leão do Ipiranga foram bicampeões. Branca calcula que são mais de 1.000 troféus em 60 anos de história.

Desde a fundação, o intuito era apenas um: ganhar, literalmente, na raça.

Quando entravam em campo, ouviam sempre comentários tortos relacionados à cor, como “bate nesse neguinho” e “esses neguinhos são chatos”. Segundo eles, parecia que as ofensas e provocações davam ainda mais motivação para ganhar, porque em campo quem manda é o placar. Não tardava em dar confusão por parte dos perdedores.

Hoje, além de se manter na presidência do time que fundou, Branca também treina as equipes de base e os veteranos do Black Power. O grêmio esportivo lançou e até exportou talentos, como Ruy Ramos, que foi jogar no Japão; o Robson Ponte, que foi pra Alemanha, e Zé Sérgio, que jogou no São Paulo Futebol Clube e permaneceu no terrão do Black por 20 anos. Até o Dinei, ex-Corinthians, jogou bola com eles.

Isso porque, além de realmente revelar jogadores ao mundo, o Black contava com vários outros de clubes maiores que topavam amistosos com os ipiranguistas. Foi pela fama e pelo domínio da bola que surgiu a Copa Black, um torneio próprio, que servia como integração de comunidades. Com espaçamento de alguns anos entre as edições, o campeonato durou até meados de 2014.

À esquerda, o jogador Assis, ex-Black Power que fez história no Fluminense ao lado de Washington. A dupla era conhecida como “casal 20”. Foto: divulgação
Foto: divulgação
Foto: reprodução

Os pais de Branca, Lauro e Neusa, sempre incentivaram o filho no esporte e a manter o clube.. Os uniformes eram lavados por ela, que também alimentava e acolhia os jogadores em casa. O falecido irmão, Vitamina, auxiliava bastante na escolinha de futebol e faz uma baita falta.

Sem patrocínio fixo e doando troféus para atletas que se destacam, o time ainda não tem campo próprio e banca tudo da equipe amadora na base da colaboração, tirando do próprio bolso mesmo.

Com a icônica frase de Luther King ainda ecoando, “eu tenho um sonho“, a luta continua. Nunca foi por dinheiro. Sempre foi por resistência.

Foto: divulgação

O Black era muito mais que um time. Era uma família, unida, acima de tudo, pelo amor“.

Foto: divulgação

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Foto: divulgação

Preconceito em um país preto

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, o Brasil conta com 55% de sua população total autodeclarada preta ou parda. O número tende a crescer nos próximos anos, visto que a consciência acerca da negritude está aumentando.

Apesar de ser mais da metade do país, a população negra ainda sofre preconceito, inclusive no futebol. Um levantamento de 2018 realizado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, foram registrados 88 casos de no esporte brasileiro, sendo 79 no futebol. Do total, 71 destes episódios aconteceram em solo nacional e 8 em outros países, mas direcionados à atletas brasileiros.

Os números revelam detalhes: 52 (cinquenta e dois) dizem respeito a discriminação racial; 04 (quatro) envolvem LGBTfobia; 16 (dezesseis) machismo; 07 (sete) xenofobia.

Os dados, assim como as atitudes, são uma vergonha para o país que se diz um paraíso racial. A luta antirracista é uma luta de todos nós.

*Essa matéria foi realizada a base de pesquisa em reportagens da Vice e do Ipiranga News.

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