Coletivo planta árvores no Ipiranga e sonha com bairro mais verde

Em uma São Paulo com cada vez mais prédios e menos verde, é a população que precisa se mobilizar para transformar a própria realidade. É assim que nasceu o Muda Ipiranga, coletivo de voluntários que planta árvores no Ipiranga, …

O projeto autônomo teve início em 2017, tendo como premissa ampliar
a cobertura vegetal da cidade, realizando ações de plantios de árvores em calçadas e áreas verdes. O grupo atua de forma voluntária no Ipiranga, Sacomã e Cursino, impactando positivamente a comunidade formada por cerca de 500 mil habitantes.

Os plantios são realizados esporadicamente, contando com o apoio e envolvimento de pessoas de todas as idades, desde crianças até a melhor idade. Essa é uma oportunidade de aproximar os moradores do meio ambiente, de incentivar a educação, a cidadania e união em prol de um bem maior, que influencia diretamente na qualidade de vida de todos.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

O Muda Ipiranga preza, especialmente, pela conservação de espécies nativas. As doações das árvores provêm da Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) da Prefeitura de São Paulo, além de viveiro privados e pessoas físicas.

Em estimativas, o grupo de plantio já realizou 15 eventos coletivos, plantando aproximadamente 250 mudas na região. Com participações em de outros grupos, como o Muda Mooca, no bairro vizinho, já chegaram a mais de 300 em plantios.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga
Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

Segundo dados da Prefeitura, o Ipiranga está entre os bairros mais arborizados da capital. A arborização traz inúmeros benefícios para a cidade, melhorando a qualidade do ar, o clima, a ventilação e o nível de ruídos, o solo e a drenagem. Além disso, as árvores são refúgios para a fauna, contribuindo também com a paisagem urbana, o lazer e a recreação.

Batemos um papo com o Lucas Martins, que fundou o Muda Ipiranga ao lado da companheira Victória Plácido, e atua como conselheiro civil do Cades Ipiranga. Confira abaixo:

Ipiranga Feelings: quando surgiu o Muda Ipiranga e por quê? 

Lucas: o Muda Ipiranga surge no início de 2017, por um incômodo pessoal quanto a situação de aridez de muitas ruas que abrangem a Subprefeitura Ipiranga. A Vila Moinho Velho, onde nasci e vivo até hoje, foi minha introdução inspiradora para o início dos trabalhos, onde comecei por minha calçada e fui estendendo aos moradores vizinhos.

A carência de vegetação não é um problema exclusivo dos perímetros da Subprefeitura Ipiranga, mas acreditei que agir localmente seria a saída mais viável, efetiva e acolhedora. Compartilhei expectativas com um amigo, o Danilo, que coordena o também movimento de plantios Muda Mooca. Foi um combustível motivacional para a “formalização” de nosso coletivo.

– Quantas pessoas fazem parte da equipe fixa atualmente? 

Estimo um grupo de voluntários mais assíduos, girando em torno de 50. A presença física é dinâmica, dependendo de programação e disponibilidade de cada um, até pelo motivo de sermos um grupo aberto, e ninguém precisa ter um compromisso fixo com o coletivo.

Cada um faz o que pode dentro da sua realidade. Nos eventos somamos forças e a contribuição vem de várias formas, seja com divulgação, transporte de mudas, insumos, comes e bebes, doação de material, etc.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

– De onde vêm as mudas para plantio? O foco são árvores nativas, certo? 

Conseguir mudas é um de nossos desafios. As mudas vêm de diferentes formas, dependendo do tipo de plantio e planejamento. Algumas, doações de pessoas físicas, viveiros privados ou vaquinha entre os voluntários. Já em alguns plantios fazemos parceria com a SVMA (Secretaria do Verde e Meio Ambiente), vindo todas as mudas dos viveiros municipais da cidade.

Nessa última opção, por ser um processo mais formal e moroso, optamos para plantios mais específicos, quando são áreas mais remotas e/ ou quando teremos plantio de maior número de mudas, auxiliando muito quanto a questão do transporte e abertura dos berços com uma cortadora de piso, que hoje é nosso grande desejo (rsrs).

Nós plantamos estritamente espécies nativas regionais, aquelas com ocorrência em fragmentos florestais mais próximos e que ocupavam a cidade antes da urbanização. É um resgate ambiental, histórico e cultural. É necessário a garantia de sinergia da flora nativa com os seres vivos, pois suas necessidades estão atreladas a elas. Conhecem suas flores, seus frutos, sua sombra, seu abrigo.

Muitos desses já ausentes do ambiente urbano por sua não adaptação. Cada espécie exótica que plantamos na cidade, mais estimulamos esse afastamento. Nós lutamos por isso nas ruas. Fica nosso apelo para que o paisagismo de empresas, condomínios e residências, resgatem as espécies nativas em seus jardins. Áreas privadas têm grande responsabilidade quando falamos em equilíbrio ambiental.

– O Ipiranga costuma ter bastante reclamação com relação à poda, seja por demanda ou por cortes irregulares. Quais são os principais problemas que vocês costumam “flagrar” por aqui? 

As podas que aniquilam e desequilibram as árvores com certeza são uma grande preocupação. Mas estas em sua quase totalidade são realizadas pela concessionária responsável pela distribuição de energia na cidade. Munícipes que drasticamente acabam com a copa de uma árvore são mais pontuais, seja pela visão que as folhas sujam, tentativa de conter o crescimento ou simplesmente para aparecer a fachada de seu comércio. Existe essa parcela mas é mínima, comparado ao que a concessionária de energia realiza.

Relevante ressaltar que existe lei e meta anual para aterramento da fiação na cidade, além de tecnologias que a concessionária tem disponível para que os galhos não comprometam a fiação. A médio prazo muitas árvores seriam poupadas de terem sua fitossanidade comprometida. É um ciclo de descrença mas com fagulhas de esperança. Plantamos, mantemos e fica aquela ideia de aqui alguns anos ela será prejudicada por essas podas que desconfiguram toda sua arquitetura e compromete sua saúde.

Em paralelo, seguimos lutando para que a concessionária tenha mais empatia e respeito com o bem estar da população, assim sendo sustentado os multi benefícios que a arborização carrega.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

– O que o grupo faz quando não está plantando? Quais são as frentes de trabalho? 

Em épocas de estiagem e trégua de chuvas, evitamos realizar eventos e focamos em planos para manutenção das mudas já plantadas e irrigação delas. É um acompanhamento permanente e prazeroso, plantar é só a primeira etapa.

– Existe algum estudo ou levantamento de dados feito por vocês? Se sim, o que já foi constatado aqui na região em termos de arborização e preservação da natureza? 

É consenso que algumas regiões do perímetro da Subprefeitura do Ipiranga é mais privilegiada de arborização. Nos “subdistritos” Sacomã e Cursino vemos uma deficiência substancial de verde, enquanto o Ipiranga, um pouco melhor, apesar de ainda ter muito potencial de melhoria e trabalho pela frente.

Dados da Rede Nossa São Paulo indicam cerca de 10 m² de área verde por habitante no perímetro da Subprefeitura Ipiranga, isso pelo privilégio de termos o Parque Estadual Fontes do Ipiranga contabilizado. Ainda assim, não chegamos no ideal, o mínimo de 15m², recomendado pela SBAU (Sociedade Brasileira de Arborização Urbana). Temos muito trabalho, principalmente na arborização de calçadas nos miolos de bairro.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

– Como as pessoas podem colaborar com o Muda? 

Provocamos cada munícipe disseminar boas práticas quando tratamos do verde urbano. Onde verificar muretas em torno de árvores ou sufocadas pelo concreto, orientar o executor a repensar a prática mediante argumentações técnicas de como aquilo prejudica o  desenvolvimento e saúde da árvore, bloqueando oxigenação do solo e entrada da água de chuva, além de colocar a acessibilidade em risco.

Todos também podem ser zeladores de sua vila ou de sua rua, contribuindo com a abertura de protocolos junto ao 156 quando verificar a necessidade de poda ou ampliação do canteiro de árvores. Assim conseguimos manter muitas delas saudáveis e evitamos agressões futuras maiores e desnecessárias.

Para quem se interessar ou puder, aceitamos doações de mudas nativas, insumos e equipamentos, como substratos, adubos e ferramentas. Carros abertos para transporte de mudas ocasionalmente também é uma ajuda extremamente bem vinda.

Além disso, todos nossos plantios divulgamos nas redes e a maior contribuição é colocar a mão na terra com a gente!

– O que é preciso para que o plantio de árvore seja feito numa via pública? 

Para plantio em calçadas, forma que priorizamos, é necessário apenas o consenso do morador.

É importante que tenhamos um trabalho em conjunto com o munícipe, pois ele adotará e zelará pela nova muda. Deste modo, nossa chance de sucesso com o plantio é potencializada e o morador passa a compreender e criar uma relação com a rua que antes ele não tinha. Antes da abordagem em cada local, verificamos se a calçada tem no mínimo 1,90 m, medida aconselhada pelo Manual Técnico de Arborização Urbana do Município.

É necessário que tenha 1,20 m de passagem livre ao cidadão e o restante pode ficar destinado a calçadas verdes com arborização. Mas cada local deve ser avaliado com critério.

Caso a calçada tenha menos que 1,90m, não é aconselhável o plantio de árvores, pois não terá espaço e permeabilidade adequada para seu pleno desenvolvimento e saúde. Neste caso, é interessante reservar os 1,20m para pedestres e o restante implantar calçadas verdes, com plantio de arbustivas e rasteiras, sempre nativas, como: vedélia, grama amendoim, cana do brejo, orelha de onça, lantana, flor-do-guarujá, caliandra, palmito-juçara (caso local sem fiação), etc.

Estamos sempre juntos ao poder público incentivando alternativas para que ruas com calçadas mais estreitas também tenham oportunidade de serem arborizadas, construindo canteiros no asfalto, em locais de guias altas. Onde antes tinha um carro, podemos ter uma árvore. Estamos trabalhando para que isso logo saia da teoria.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

– Qual é o maior sonho, o grande propósito, do Muda Ipiranga? 

Além do óbvio desejo de vermos as ruas da cidade com muito mais verde, nos propomos sempre a fazer o melhor dentro das nossas possibilidades. A expansão da consciência começa tomar forma e é peça fundamental para uma cidade menos hostil e que dê valor ao verde. Estimo que isso possa permear nosso dia-a-dia cada vez mais e, tomando consciência dos espaços, das ruas, do cuidado para o outro, vamos transformando cada rua em locais de acolhimento, encontros e bem-estar. O verde das ruas é o brilho final dessas somas.

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

sonhos compartilhados

Os voluntários do Muda Ipiranga também participaram da nossa matéria, compartilhando seus sonhos e anseios para o bairro. Abaixo vocês conferem os relatos de cada um que doa tempo e afeto para contribuir para uma cidade mais verde e feliz!

“Acredito que seria através do trabalho e conscientização buscar resgatar a mata nativa, integrando a cidade com a natureza e assim, trazer para a população maior qualidade de vida e para o planeta saúde e sustentabilidade. Servindo de exemplo para que este conceito seja aplicado em outros bairros, cidades, e aos poucos pelo mundo a fora. Construindo dia a dia o sonho de mudar o mundo”Lilian

“Conscientizar e integrar moradores da região e proximidades, as ações, informando, ensinando e conscientizando tanto aos adultos e principalmente às crianças, a importância da preservação e plantio de novas árvores, para melhorar nossa qualidade de vida e principalmente do planeta”. – Elisângela

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

Acho que o maior sonho seria a transformação do bairro com uma mudança de mentalidade. Ver no bairro, na rua, uma parte de sua casa e tratá-la como uma extensão de seu lar. Cuidando de cada detalhe, com carinho e atenção. Não deixar nem papel de bala no chão e exigir das autoridades um completa urbanização de todo o Ipiranga, água e saneamento básico a todos.”Flávio

“Pensar global e agir local, essa frase é do sociólogo alemão Ulrich Beck, e para mim traduz muito bem minha contribuição para o coletivo Muda Ipiranga. O meio ambiente está neglicenciado há muito tempo, então melhor do que reclamar ou criticar é juntar-se a quem está fazendo algo para mudar a situação das cidades super urbanizadas. Muda Ipiranga nos ajuda a ver a força que a sociedade tem agindo coletivamente.”Susie

“Acordar pela manhã, ouvindo o barulho dos pássaros, abrir a janela do quarto e ver todos os quarteirões do bairro ipiranga com pelo menos quatro árvores em cada lado do quarteirão”.Mário

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

“Eu acho que o maior sonho ou talvez o grande propósito do Muda Ipiranga seja ver a cidade transformada, florida, com muitas árvores, plantas rasteiras nas calçadas; sensibilizando com seu exemplo a formação de outros movimentos do Muda e alcançar relevância global, onde um contingente cada vez maior de humanos plantam e mudam suas ações se tornando cidadãos mais conscientes da urgência de cuidar do nosso querido planeta Terra” – Casé

“Eu acho que o grande sonho é ver o nosso bairro com bastante árvores, rotatória verde, espaços com drenagem, compostagem das podas, dos resíduos sólidos da feiras, etc. O envolvimento das crianças é muito interessante para formar cidadãos mais conscientes. Ter foco no plantio e não sonhar demais para não se decepcionar. Fiquemos no nosso bairro, se a coisa florescer, contaminar outros a fazer o mesmo, já nos damos por satisfeitos, é assim que eu penso.”Ailton

Foto: divulgação/Muda Ipiranga

 

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